Acertando as contas II: Fear of the Dark, Iron Maiden (1992)

iron maiden fear of the dark

Eu ouço Iron Maiden há muito tempo. Vi pela TV o show do primeiro Rock In Rio e assisti a estreia de Wasted Years no Clip Trip (por onde andará Beto Rivera?). Gravei discos, comprei discos, ganhei discos. Descolei a discografia toda quando o mp3 sequer existia (pelo menos pro proletariado zona sul de Sanja). E logo adotei a banda – foi a primeira banda de metal que gostei, antes do Metallica, antes do Sepultura, antes de tudo. E, como fã, passei a favoritar discos, tour e gigs.

A fase Di’Anno eu sempre gostei pra caramba, até por ter aquela pegada punk (Prowler, Running Free) e as doideiras de sempre (Murders in the Rue Morgue, do disco Killers, me apresentou outra paixão: Edgar Allan Poe). O começo da era Bruce foi espetacular: a trinca The Number – Piece of Mind – Powerslave é daquelas de encabeçar qualquer lista de grandes momentos da história da música pesada, além de ter sido o auge do Maiden, tanto em popularidade como também em qualidade musical. Ousado sem ser incompreendido, agressivo na medida certa, com uma temática não muito fácil (Samuel Taylor Coleridge?!) mas tratada com vigor e capricho que permitiram que ela fosse assimilada em escala global. Aí veio o Somewhere in Time e a banda, que parecia uma unidade bem coesa, começou a esfarelar. Grandes discos ainda vieram, como Seventh Son of a Seventh Son, mas era claro que haviam divergências. E, pra mim, o ápice deste período foi o disco Fear of the Dark, de 1992. Foi tão triste que culminou com a saída de ninguém menos que Bruce Dickinson, cantor e carisma em pessoa.

Mas calma lá. Entendamos o contexto: pra muitos, mídia inclusive, o metal estava morto. O hard californiano dos anos 80, o hair metal, tinha saturado o formato. Tudo que era associado a heavy metal era vergonhoso, feio até. Cabelos oxigenados, sexo aos montes, cocaína idem, fritação de notas e vocais gritados. Mesmo quem tinha conteúdo acabou sendo tragado pelo bode gerado. Veio o grunge (impossível dissociar do título daquele documentário: “1991 – The Year That Punk Broke” – o que é até correto, pelo menos no que concerne aos EUA) e o heavy metal estava morto. Até mesmo o Metallica, grande nome do gênero, largava os excessos e lançava um disco cru para os seus padrões, sem exageros (“Metallica”, ou Black Album, o álbum preto, 1991). O próprio Maiden lançou “No Prayer for the Dying”, em 1990, que era um disco “punk” para os padrões de Steve Harris e companhia. Adrian Smith (guitarra) havia deixado o grupo ao final da tour do disco anterior, o já mencionado Seventh Son (eu, particularmente, gosto bem de ambos). Em seu lugar entra Janick Gers (carreira solo de Bruce Dickinson e de Ian Gillan), com estilo mais “sujo”, em particular nos solos. O vocal de Bruce, agudo e melódico, pendia mais pro hard rock, rouco em algumas passagens, sem grandes exageros operísticos.

Então veio o disco seguinte, citado no título. Pra aumentar o medo dos fãs, o talentosíssimo produtor Martin Birch, com a banda desde o Killers (1981), anunciou que se aposentaria. O engenheiro de som Nigel Green e o próprio Steve Harris iriam produzir o disco. Ventilava-se que o disco seria uma volta às raízes (que banda nunca jogou essa carta, não é?). Ainda agressivo, mas com a musicalidade de tempos áureos do Maiden. Veio o single, “Be Quick or Be Dead”. Um Maiden mais sério, adulto (por que todo mundo que resolve ficar adulto começa a partir da negação da adolescência?), atento ao mundo e seu entorno – numa porradaria velocíssima, o que compensava a ausência de humor. O segundo single, From Here to Eternety, além do refrão levanta-estádio, mostra que havia mais: motocicletas, inferno (intertexto com AC/DC, “Hell Ain’t a Bad Place To Be”) e garotas. E aí veio Wasting Love.

Uma BALADA! Metal Punk, cabelo no meio das costas em 1992. Revoltado contra tudo e contra todos… Escuta uma de suas bandas favoritas cantar: “Desperdiçando o amor, numa carícia desesperada / Sombras rodando pela noite”? Não ia rolar. “Nothing Else Matters” eu já tinha desprezado pelo mesmo motivo, mas o Metallica, pra gente, já tinha “traído o movimento” anyway. O Maiden não! O Maiden sempre tinha sido modelo de integridade pra todos nós, não era pra cair nessa. Claro que ignoramos o seguinte: os caras lançaram uma balada porque quiseram, porque era musicalmente interessante, não pra chocar ninguém. A balada mais baba da banda ainda é Strange World, do primeiro (?) disco. E “Wasting Love” é do cacete, claro. Mas, na época, foi suficiente: o disco era horrível. E “Fugitive”, sobre série de TV. “Weekend Warrior”, sobre hooligans. Mas parei e nem dei bola. Foi o único disco que não gravei, comprei… Nada.

Até que, numa viagem pra praia em 2007, a gente começa uma “tradição”: sempre que nosso grupo de fanáticos tromba, a gente faz um Top 5 ou Top 10 de Maiden: discos, músicas, solos, capas, Eddies… E o Criz, brother das antigas, leva um cd só com mp3 do Maiden pra servir de trilha. Tinha “Judas Be My Guide” e “Fear is the Key” e eu pirei. As músicas eram legais, e eu me senti um idiota por ter perdido tanta coisa. Baixo a discografia e jogo o disco no celular, pra ouvir no rolê. Quanta coisa interessante. Não é um baita disco do Maiden, claro. Mas é um disco que dá uma sova em muita coisa do período – e inclusive nos meus preconceitos idiotas, com o perdão do pleonasmo.

Os sons já citados, todos, são muito bons. E ainda tem a faixa título, que retoma a tradição Maideneana de produzir épicos cantáveis pros shows – tanto é que essa não sai do set list desde a tour de 92, a última de Bruce. A versão do disco A Real Live One então, PQP! É matadora demais! Afraid to Shoot Strangers, oh my… até nosso grupo de “boleiros de fim de semana” levou o nome de uma música desse disco (“Weekend Warriors”, hehe). É dos discos mais pesados da banda, palhetadas correm solta, o baixo marcante sobressaindo, a bateria bem gravada. Vale a viagem. Talvez um pouco longo demais pra quem é iniciante na parada, mas vale a insistência. Até os duetos de guitarra, que andavam sumidos, voltam (como em “The Apparition”). Enfim, agradável de ouvir, e ainda traz, no mínimo, dois clássicos da banda (“Wasting Love” e a faixa título). Divisor de águas, amado ou odiado, esqueça. Apenas curta um bom disco de heavy metal.

Up the Irons!

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Sobre Rodrigo Cavalcanti

The lunatic is on the grass...
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2 respostas para Acertando as contas II: Fear of the Dark, Iron Maiden (1992)

  1. Criz Oliveira disse:

    Rodrigo,maravilhoso a forma que retratou a carreira e os albuns ao longo desses anos ora de ouro,outros nem tanto da nossa saudável banda Iron Maiden.
    Quando escutavamos as músicas e brincavamos de Top 5,eu sempre insistia em colocar Weekend Warrior na minha lista,música que escuto até hoje e me emociono com a letra,melodia e totalmente cativante,me sinto um personagem,e um dos solos mais lindos que a Donzela já fez!!!o disco em si,como você muito observador e admirador,entendedor de música,realmente concordo com você,album muito bem gravado acima de tudo,Jannick trouxe uma “agressividade suja” em contradição com o límpido de riffz e solos de Dave,trouxe um equilíbrio e diversificação no mínimo de se ficar de queixo caído com a ousadia!!!sim,pra mim é um disco divisor de águas e ousado!!!
    Long Live Iron Maiden!

    Up The Fucking Irons!!!

    Criz Oliveira!!!

  2. Mano, vc é irmão. Palavras gentis de um grande amigo, valeu demais! E up the FUCKING Irons, sempre!

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