As personagens e a verossimilhança na TV

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“I’m not crazy! My mother had me tested!”

Eu gosto (muito!) de séries. Enlatados americanos mesmo. Comédias pra o tempo passar, nada muito reflexivo ou que demande um acompanhamento xiita da coisa. Gosto porque gosto e pronto. Mas aí, toda vez que falo isso (e ainda mais sendo professor de literatura – sarcasmo mode on), algum militante da causa Brasil me interpela com algo do tipo:

“Mas como você gosta desse produto americano e não suporta novelas (ou séries) brasileiras? É quase a mesma coisa.”

Eu poderia partir desse “quase”, mas nem isso: não são nem de perto a mesma coisa. E o problema não é a história ou falta delas, pra mim; nem de roteiro ou falta dele. O problema é a questão da verossimilhança. Verossimilhança?

“A verossimilhança se assemelha à verdade mas não se confunde com ela, representando antes a vontade da verdade do que a verdade mesma. (…) nunca temos acesso à verdade completa, logo, a verdade é sempre não-toda. Entretanto, o fato de não termos acesso pleno à verdade não diminui a nossa vontade de sermos verdadeiros e a intensidade da nossa busca pela verdade.”

(BERNARDO, Gustavo – Revista Eletrônica do Vestibular, UERJ – Ano 3, n. 9 – 2010)

“A obra de arte, por não ser relacionada diretamente com um referente do mundo exterior, não é verdadeira, mas possui a equivalência da verdade, a verossimilhança, que é característica indicadora do poder ser do poder acontecer.” 

(D’ONOFRIO, Salvatore. Teoria do texto (vol. 1). São Paulo: Ática, 1995 – p. 21)

Retomando: o caldo engrossa no “poder ser”, no “poder acontecer”. As novelas e as séries brasileiras, de modo geral, são inverossímeis pra mim. Por quê? Ora, com personagens essencialmente maniqueus, não dá pra acreditar. Seres humanos são complexos demais pra serem simplesmente “bons” ou “maus”. Mocinhos ou bandidos, heróis ou vilões. Falta complexidade, sobra superficialidade. E que fique claro: este post não discute, em momento algum, a qualidade das obras citadas. Apenas expõe um ponto de vista sobre a construção das personagens. Mas enfim, personagens maniqueístas morrem de inanição.

Maniqueístas?

ma·ni·que·ís·ta
(maniqueu + -ista)

adjetivo de dois gêneros

1. Relativo ao maniqueísmo.

adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros

2. Que ou quem é partidário do maniqueísmo.

3. Que ou quem concebe a realidade sob um ponto de vista dualista, com dois princípios opostos.

“maniqueísta”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/manique%C3%ADsta [consultado em 14-09-2015].

Isso quando não são essencialmente caricatos – inverossímeis, portanto. E que note-se: “exagerado” não é, necessariamente, sinônimo de “caricato”. Uma boa comédia pode sim exagerar no tom da personagem, mas sem retirar-lhe a verossimilhança. Ele pode ser um exemplo exagerado, porém factível (o Sheldon Cooper, magistralmente composto por Jim Parsons em Big Bang Theory, ou mesmo o Joey Tribbiani de Matt Le Blanc em Friends, encaixam-se aqui).

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“How you doing?”

Nos Brasucas, o Agostinho Carrara de Pedro Cardoso em A Grande Família e mesmo o casal Rui (Luis Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres) em Os Normais são exemplos pertinentes de êxito neste sentido.

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“Calma, Bebel!”

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Normais só no nome. Exagerados, porém verossímeis.

Caricato?

ca·ri·ca·to

adjetivo

1. Ridiculamente risível.

2. Ridículo, burlesco, irrisório.

substantivo masculino

3. .Ato que nos dramas tem o papel de ridiculizar.

“caricato”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/caricato [consultado em 14-09-2015].

Tosco, enfim. É só recapitular as novelas: os mocinhos são ingênuos até o limite da estupidez. Acreditam piamente no ser humano, têm valores bem definidos, são totalmente do bem. E os vilões? Intrinsecamente maus até o limite da loucura – não por acaso, via de regra acabam presos, internados ou mortos. Não há dualidade possível, portanto aquilo NÃO PODE SER. Ou você aí conhece algum ser humano que é UMA COISA SÓ o TEMPO TODO? O ser humano é contraditório, o ser humano é múltiplo. Ama e odeia. Compromete-se e manda dizer que não está. Quando algum personagem carrega minimamente nesta questão, acaba sendo reconhecidamente mais atraente (o Tufão, interpretado por Murilo Benício na novela Avenida Brasil, é um exemplo que me vem). Nesta mesma novela, a vilã (Carminha, Adriana Esteves) apostava toda sua carga num teatro que enganava o marido, como boa esposa, e entregava-se loucamente ao amante conspirador. Uma vez desmascarada, atirou-se num precipício de ódio que desvalorizou a personagem, tornando-a ridiculamente risível.

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Tufão e Carminha são personagens interessantes e de fácil contextualização, pra fins de estudo

Acredito mesmo que este seja um defeito recorrente na teledramaturgia brasileira. Falta alguém que escreva uma personagem sem achar que tem que ser didático, ou sem achar que esteja escrevendo para idiotas. O contraditório alimenta o drama, o contraditório faz a gente pensar e querer mais. Não à toa, a audiência das novelas vem despencando ano após ano. A crise não é de ideias, a crise é de pessoas. No caso, personagens.

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Sobre Rodrigo Cavalcanti

The lunatic is on the grass...
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4 respostas para As personagens e a verossimilhança na TV

  1. Verdade. Eu nunca tinha analisado profundamente essa questão. A questão da(o) vilã(o) e a(o) mocinha(o). 100% bom e 100% mau. A única novela que tentou sair um pouco disso foi a favorita, lembra?! Que no começo a vilã era a mocinha e com o decorrer da novela fomos descobrindo que não era assim. Mas ainda assim. Mas sabe que eu vi um artigo esses dias que estava falando o quanto a opinião do público caga na novela. A novela x que tá passando agora (não sei qual) o autor tentou separar o casalzinho e houve tantos protestos, que ele acabou unindo novamente e a novela ficou chata, mas o público não quer sofrer. Tá tudo boring, socorro!

  2. duda maa disse:

    Realmente, faz sentido. Talvez a ideia de comprar o telespectador pelo obvio seja muito tentadora. Acredito que a última novela das 23h ( Verdades Secretas) trabalhou de forma mais profunda os personagens, por exemplo, a protagonista Angel- tola,mas muito falsa com a mãe,um conflito em vilão ou mocinha- porém, a obra recorreu ao apelo sexual para ganhar audiência , o que particularmente me decepcionou.

    • Oi Duda, desculpa a demora quase eterna pra responder. Sobre o trecho final do seu comentário: essa é a saída da TV brasileira desde sempre: apelar para nossos instintos “mais primitivos”, haha… Dureza, mas é isso. Agora fazem com a desculpa da “classe C”, como se as pessoas não quisessem (ou mesmo almejassem) algo bacana pra assistir. (embora as vezes eu tenha dúvidas sobre isso) Elucubrações a parte, obrigado pela visita. Vamos ver se escrevemos nisso novamente…

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