A longa estrada

long road

Não tenho muito o que falar de mim. Homem branco, solteiro, caminhando para os 50 anos de idade. Trabalho, muito. No comércio, senhor. Gerente numa loja de autopeças, aqui pertinho, há 12 anos. Disse solteiro e já minto: separado. É que a gente fala que está solteiro, sabe como é. Mas vivi com uma mulher por alguns anos. Uns 9, eu acho. Tivemos uma filha, que já é moça – olha aqui como é bonita. Mas a gente não se fala muito não. Tem umas broncas aí… Onde eu moro? No São Vicente. Casa própria, sim senhor.

Não gosto muito de falar de mim, mesmo porque eu não sei exatamente o que falar. Sou um cara comum, trabalhador, que se ferra pra pagar as contas e tomar uma cerveja com os camaradas aqui ou ali – ou mesmo um bom vinho, gosto bem. Dos chilenos, de preferência. Já passei da fase de me preocupar com o resto – eis uma das vantagens de envelhecer. Na real, eu quero é que geral se foda. Tenho meus livros, meus discos e eles me bastam. Se pudesse fazer um pedido, queria ter a minha filha mais perto. Mas eu é que pisei na bola, então eu entendo. O dia que ela quiser eu estarei aqui. Mas o resto, é como eu disse… Que se foda.

820721-outsider-punk

Antigamente eu achava que o problema era eu. Eu não gostava de nada. Não gosto de shopping, não gosto de muvuca, não gosto de balada, não gosto de barzinho, não gosto de porra nenhuma. Achava as músicas chatas, as pessoas chatas. Gosto de teatro, gosto de show, gosto de música, gosto de livro, gosto de conversar e também de estar sozinho. Mas essas coisas cada vez estão mais, por assim dizer, fora de moda. E aí na minha cabeça o problema era eu, o mundo não era pra mim, esses papos babacas.

Só que aí vem a idade e você percebe que o problema é você no sentido de procurar coisas erradas nos lugares errados, com pessoas erradas. Se eu gosto de livro, por que eu vou pra balada? Se eu gosto de teatro, por que eu vou para a festa agropecuária? Se eu gosto de conversar, por que vou aonde o som é ensurdecedor? Tenho poucos e bons amigos, no fim das contas. Afinidades e prazeres que nos reúnem: uma cerveja, um som, um bom papo, um churrasco no fundo de casa… Não vou ficar rico, senhor. Então, de tanto trabalhar é que não vou morrer mesmo.

Se, como o senhor mesmo me perguntou, existe uma “decadência da cultura”, eu também quero que ela se foda. Eu estou fora dela, ela não é pra mim, nem sei do que se trata. As músicas que tocam, os filmes que lançam, as coisas que passam na televisão, eu não quero nada disso – isso sem pensar nada ou julgar quem gosta. Acredito na diversidade, vivo a diversidade. Aprendi a viver à margem e é como tenho vivido os últimos 10, 15 anos e não há um pingo de rancor no que falo: pode ter havido, no começo dessa busca. Mas depois? Você entende o seu lugar no mundo e passa a cuidar dele, e gostar. Vou atrás de coisas que me satisfazem a partir de coisas que me satisfazem, tá ligado? Parece confuso, admito, mas tenho a total certeza que foi isso que me salvou a vida. Sem exagero: me salvou a vida. E tá tudo certo. Não há conformismo: é compreensão. Se você não entender a diferença entre um ou outro, vai continuar buscando em vão. Compreender para poder voar. Compreender sem se limitar. Eu acho que essa é a grande viagem.

barca

Já vai? Era só isso mesmo? Deixa eu levar o senhor até o portão… Imagina, não por isso. Espero que dê certo tudo aí, viu? Falô, irmão. Abraço.

 

Anúncios

Sobre Rodrigo Cavalcanti

The lunatic is on the grass...
Esse post foi publicado em autorais, crônicas, sem categoria e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s