E o Iron Maiden dominou o mundo, mesmo o mundo não querendo o Iron Maiden…

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Quem me conhece, pessoalmente ou pelo blog, sabe o quanto eu gosto de Iron Maiden. E o quanto ouvir esses caras (e o metal em geral) abriu a minha cabeça, desmentindo o estereótipo de “quem ouve heavy metal tem a cabeça fechada” – ou ainda: se as pessoas têm a cabeça fechada, que culpe suas próprias cabeças, corações, mentes ou criação, não a música. Divago e fujo, não é sobre isso que quero falar aqui. Mas retomo.

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A parede de cordas!

A despeito de toda a má vontade da crítica e até da indústria musical, o Iron Maiden venceu. Ganhou do sistema por dentro. Consegue ser uma banda plenamente “independente” (no que pode-se chamar de independente no século XXI): grava o que quer, toca onde quer, lança o que quer. Encarou profissionalmente seu gerenciamento, distribuiu funções e dá uma banana pra toda essa babaquice que virou o mundo da música neste tosco século XXI.

Ou seja: não é besteira dizer que o Iron Maiden dominou o mundo, mesmo o mundo não querendo uma banda como o Iron Maiden. Músicas longas? Solos de guitarra? Duetos de guitarra? Referências históricas? Um personagem em vez de a imagem dos músicos? Como encaixar esses caras num mundo onde “likes” e mídia sobre roupas e “bafos” imperam? Uma banda que nunca “flertou” com nada (você nunca lerá algo como “Iron Maiden flerta com batidas eletrônicas em novo disco” – GRAÇAS A DEUS!). Enfim, os caras seguem ganhando terreno do jeito deles, sem ceder um milímetro.

Steve Harris, o big boss, mantém-se ativo na estrada com seu projeto “British Lion”. Lançou um disco mediano, cai na estrada vez ou outra sempre lotando gigs e tá felizão: botando um monte de gente tocando com ele, envolvido em fazer o lance de música girar mesmo – poderia, facilmente, estar curtindo e contando grana em casa. Os guitarristas, cada um à sua maneira, segue envolvido com música: compondo, envolvido com a criação ou lançamento de algum modelo ou equipamento: seja Dave Murray em parceria com a Fender, Adrian Smith customizando e lançando suas Jackson ou Janick simplesmente usando as Sandberg. Mesmo Nicko empreendeu o tal “Rock and Roll Ribs – where BBQ meets METAL”, haha… Enfim, a turma expandiu.

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O homem, o mito.

Bruce Dickinson é um parágrafo à parte: escritor, piloto de avião, esgrimista, estudioso da história (e da história da aviação em particular) e executivo de aviação. Não entra em negócio algum pra brincar, como percebe-se. Juntos, todos, também não brincam: entraram no ramo da “cerveja estilizada” lançando a Trooper Beer (fato esse que virou febre geral – o que me provoca risos ao lembrar de como amaldiçoaram quando o Sepultura lançou sua DELICIOSA cerveja Weiss), dinamizaram o conceito de “loja online” com uns petiscos tentadores pra quem é fã, viabilizaram o próprio avião, para que possam alternar sucessiva turnês mundiais em que reverenciam a própria história com turnês mundiais de álbuns no mínimo muito bons.

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Cheers!

E é aqui o ponto principal. No autêntico modelo old school, pro Iron Maiden (e pros fãs), de nada adiantaria toda essa perfurmaria se a música não fosse boa. E ela é boa pra caramba. O Iron Maiden reinventou-se como uma fênix e hoje é, ouso dizer, ao lado dos Rolling Stones, do U2 e do AC/DC, das poucas bandas que estão acima do estilo que as consagrou. Que pode fazer (e faz!) apenas o que quer. Todas as citadas aqui, TODAS, têm mais benevolência da mídia do que o Iron Maiden. Goste ou não, meu amigo, a verdade é essa: o Iron Maiden venceu o sistema por dentro!

Eu tava aí! O momento em que a fênix renasceu, daqueles que marcam uma vida…

O sistema quebrou os Beatles, o Metallica, os Ramones, o Sepultura, o Sex Pistols, o Nirvana, o Led Zep, o Who, o Bon Jovi, o Deep Purple, o Van Halen – pense em alguém realmente grande: o sistema, essa entidade abstrata, quebrou em algum momento e obrigou esses caras a parar ou trabalhar em outro patamar, as vezes até com outras pessoas. Bandas como Slayer, Motorhead, Rush e mesmo o Pearl Jam, que também estão aí firmes desde sempre, optaram (a meu ver) por ser mais à margem – e nunca chegaram no patamar das citadas, seja em vendagem ou concertos ou turnês.

E o disco acaba assim…

Mas já fujo de novo e volto: o ponto que deixa muita gente atordoada, inclusive fãs, é que o Iron Maiden não lança disco sequer razoável desde quando Bruce e Adrian voltaram em 1999. Brave New World, o marco do renascimento, é excelente. Marca a banda com um pé definitivamente no progressivo, com uma musicalidade e uma dinâmica que deixou muita gente perdida. O trabalho de guitarras ainda essencialmente conservador, uma mixagem que derrubou o baixo marcante de Harris, mas ainda assim um baita disco. A produção de Kevin “Caveman” Shirley, amada OU odiada, sem meio termo, fez a banda evoluir. O que Martin Birch fez a partir do Killers, Shirley fez a partir do BNW: colocou o som da banda em outro patamar. A intro arrasa quarteirão com Wikerman, Ghost of Navigator, Dream of Mirrors, Out of Silent Planet, Thin Live Between Love and Hate… Ah, fala sério!

Dance of Death foi o disco de 2004. Pra mim, o mais fraco da volta. E olha que tem Rainmaker, Paschandale, o arpeggio pesadíssimo de Montsègur e a estupendamente cênica faixa título, daquelas coisas que só um Iron Maiden poderia fazer sem soar piegas. E uma coisa que pouquíssimas pessoas perceberam: o Iron Maiden apegava-se à conceito de álbum sem necessariamente lançar um álbum conceitual, musicalmente falando. Se a questão do descobrimento e do mundo era o mote em BNW (navegadores, nômades, viagens espaciais), a teatralidade veio forte como nunca neste DoD. Bruce vestido de militar em Paschandale ou com a capa da morte na faixa título, nos shows. A capa com as máscaras de teatro. Até o bis com a acústica Journeyman, todos sentadinhos e Bruce com a toalha nos ombros tipo “tá, volto do camarim pra cantar mais essa e acabamos todos felizes”.

Porque quem sabe faz ao vivo! (ugh!)

O mundo, o teatro. Então 2006 mostrou a religião e a guerra, num dos meus discos favoritos da Donzela: A Matter of Life and Death, este praticamente conceitual em termos musicais também. Finalmente as 03 guitarras atingiram a maturidade: pesadas quando precisam ser, discretas quando precisam ser. As músicas quebram e, se com BNW a banda fincou um pé no prog metal, aqui ela coloca o outro. Mudanças repentinas de andamento, violões, solos: a coisa ficou bem resolvida e se destacou.

Bruce finalmente deixa uma das características que mais me desagradavam desde a volta: a insistência em tons altos. Sacada magistralmente explícita na rápida, pesada e alegre Different World, que abre o disco: os versos cantados em tom alto, e a descida que desnorteia no refrão. A parede de guitarras em Brighter than a Thousand Suns, as viajantes These Colours Dont Run e The Reincarnation of Benjamin Breeg (quem lança uma doideira dessas de single em plena era do “tudo rápido em tempo real”?). As quebradas pesadíssimas em Lord of Light e Longest Day, as palhetadas em Greater Good of Good. Nicko, sempre menosprezado pelos “gênios” da mídia especializada, brinca durante o disco: os paradiddles, os contratempos, as levadas, aquele pé absurdamente rápido e preciso…

Final Frontier, o espaço sideral, 2010. Rapaz, como escuto esse disco hoje em dia. Aliás, escuto-o agora, enquanto escrevo. Um Maiden que sempre busca ir além sem perder a sonoridade que o fez ser o que é: a intro Satellite 15, como um recado à nave mãe, que resolve-se na intro da faixa título, escancarando uma das maiores influências dos caras: Deep Purple. Como essa música me remete à fase Steve Morse do Purple! E nesse disco algo que sempre deveria estar explícito no Maiden ressurge com força total: o maravilhoso baixo Fender do senhor Steve Harris. Marcando a levada, caminhando com os caras, berrando um “estou aqui, p#rra!” 30 anos depois do primeiro disco. Que maravilha!

Até a velocidade, que andava rareando, volta lindamente – escute Talisman, o single El Dorado ou mesmo Alchemist e veja se estou errado. Mas o grande destaque do disco (conceito, rapaz! Conceito!) são as viagens “space rock” dos caras: Isle of Avalon arrisco dizer ser a coisa mais diferente feita pela banda até então. A dobradinha soberba que encerra o disco, The Man Who Would Be King e a belíssima When the Wild Wind Blows, ilustram bem a história. Até a balada da vez, Coming Home, é belíssima, com um trabalho estupendo de guitarras.

Engraçado é que tive o insight pra escrever este post ouvindo o novo da banda, The Book Of Souls. Pra mim, por enquanto, uma obra prima. Empolgação de fã ou ouvido apurado, só as audições vão dizer. E não vou escrever nada sobre este disco, por que quero fazer um texto inteiro sobre ele, que merece. E também porque não quero escrever sobre um disco que ouvi uma ou duas vezes, como parecem fazer certos veículos de comunicação: opinam com uma ouvida superficial num disco com mp3 comprimido, sem qualidade alguma. Comigo não, violão. Aqui é Up The Irons.

Ou, como dizem nos encartes de algum tempo pra cá: COME ON YOU, IRONS!

 

PS: escrevi este texto na exata duração do Final Frontier… When Wild Wind Blows acabou de acabar…

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Sobre Rodrigo Cavalcanti

The lunatic is on the grass...
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7 respostas para E o Iron Maiden dominou o mundo, mesmo o mundo não querendo o Iron Maiden…

  1. luciano oliveira disse:

    Excelente texto….

  2. Lord Marx (arghhhh !!!!) disse:

    Ainda hoje agradeço ao Sr. Rodrigo por introduzir minha pessoa ao mundo do inigualável Iron Maiden. Seu lugar no Valhalla está garantido, nobre bardo !

    • Pelas barbas de Eallal, Lord MARX is alive and well. Que saudade dos papos, cara. Que alegria te ver por aqui… Abraço!

      • Lord Marx (arghhhh !!!!) disse:

        Cara, mandei diversas mensagens no Face e por mail, mas por algum motivo elas não devem ter chegado. Fiquei lisonjeado ao ver meu nome citado em um post seu. Não sei o porquê, mas não consigo enviar pedido de amizade. Abraço !

  3. Pelo FACE????? O senhor tem Face? Cara, procurei pra caramba nesses anos todos. Só tenho conversado com o senhor pelo YT ou pelo chat gmail… Manda pra mim (via msg) pra gente trocar ideia, cara! ABração!

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